Em uma nova edição do Fin Talks, Julián Colombo conversou com Mariano Amartino, referência do ecossistema tecnológico e empreendedor latino-americano, sobre inteligência artificial, startups, comunicação, educação e as mudanças que já estão redefinindo a forma como trabalhamos, decidimos e construímos conhecimento.
A entrevista, realizada no contexto do Fintech Américas com o apoio da N5 Now, percorreu a trajetória de Amartino em empresas como Microsoft e Telefónica, sua experiência na criação de programas de investimento para startups e sua visão sobre o impacto real da inteligência artificial nos negócios.
Veja a entrevista completa:
Uma Trajetória Marcada por Tecnologia, Investimento e Startups
Durante a conversa, Amartino revisitou parte de seu percurso profissional, um caminho que coloca a América Latina no centro da transformação tecnológica.
Microsoft for Startups e o Ecossistema Regional
Na Microsoft liderou e desenvolveu o programa Microsoft for Startups, uma iniciativa através da qual a empresa investia e acompanhava startups tecnológicas, primeiro na América Latina e depois se expandindo para a América, incluindo Estados Unidos e Canadá.
Esse programa permitiu observar em primeira mão como nascem e crescem negócios tecnológicos na região, o que as diferencia globalmente e por que o talento latino-americano continua sendo um ativo estratégico.
Wayra: As Primeiras Aceleradoras Corporativas
Antes da Microsoft, participou da criação da Wayra, braço de investimento da Telefónica, uma das primeiras aceleradoras corporativas em nível global. A partir daí, contribuiu para a abertura de espaços em diferentes países da região e para o acompanhamento de centenas de startups, num momento em que o ecossistema empreendedor latino-americano ainda estava em plena construção.
Lições do Ecossistema
Essa experiência lhe permitiu observar de perto como se formam os mercados tecnológicos, como se consolidam os ecossistemas de inovação e por que a América Latina continua tendo um valor diferencial: talento, capacidade de adaptação e uma forma própria de criar soluções em contextos complexos.
Inteligência Artificial: Deixar de Pensá-la Como Se Fosse Humana
Um dos eixos centrais da entrevista foi a inteligência artificial. Amartino fez uma crítica clara a uma das tendências mais frequentes no debate atual: antropomorfizar a tecnologia.
Por Que Antropomorfizar a IA Leva a Erros
Muitas pessoas e organizações interpretam a inteligência artificial como se ela pensasse, entendesse ou raciocinasse de forma humana. Essa leitura, além de imprecisa, pode levar a erros graves na forma como a usam dentro de uma empresa.
Pensar que a IA “pensa” como nós gera expectativas incorretas, medos desproporcionais e decisões empresariais deficientes. Requer uma mudança conceitual importante.
Como Funcionam Realmente os Modelos de Linguagem
Para Amartino, um modelo de linguagem não funciona como um cérebro humano. É um sistema de previsão probabilística que trabalha com:
- Tokens (unidades de texto)
- Contexto (informação disponível)
- Padrões (associações aprendidas)
Quando uma IA fornece uma resposta incorreta, não “alucina” no sentido humano: simplesmente prevê uma saída provável a partir da informação disponível.
Por Que Essa Distinção é Crítica
Essa distinção é chave para empresas, bancos, fintechs e organizações que buscam implementar inteligência artificial em seus processos. Compreender o que a tecnologia pode fazer, o que não pode fazer e sob quais condições agrega valor é o primeiro passo para usá-la com critério.
Sem essa compreensão, a implementação de IA geralmente falha ou não entrega o valor esperado.
A IA como Copiloto, não como Piloto Automático
A conversa também abordou uma pergunta inevitável: que profissões ou atividades podem ser imunes ao avanço da inteligência artificial?
Por Que Nada é Completamente Imune
Amartino foi claro: provavelmente nada seja completamente imune. No entanto, isso não significa que tudo será substituído.
A inteligência artificial pode:
- Assistir tarefas
- Acelerar processos
- Complementar habilidades
- Melhorar resultados
Mas não necessariamente substituir completamente o critério humano.
A Metáfora do Copiloto
Nesse sentido, destacou a ideia de a IA como copiloto. Não se trata de delegar todas as decisões a uma máquina, mas de usá-la como uma ferramenta que ajuda a pensar, operar e decidir melhor.
O copiloto não substitui o piloto: o assiste, avisa sobre riscos, otimiza a rota e mantém a altitude. Mas o piloto continua sendo responsável pela navegação, pelas decisões críticas e pelo destino final.
IA em Fintech: Entre Eficiência e Controle
Essa visão é especialmente relevante para a indústria financeira, onde a adoção de inteligência artificial não pode depender apenas de eficiência. Também requer:
- Segurança
- Controle
- Rastreabilidade
- Compreensão do negócio
- Leitura do impacto sobre clientes e processos
Por isso, em banco e fintech, a IA como copiloto é mais que uma metáfora: é uma necessidade operacional.
O Futuro do Trabalho Exige Pensamento Crítico e Comunicação
Outro momento central da entrevista apareceu quando Colombo perguntou a Amartino: O que faria sentido estudar pensando nos próximos quinze anos?
O Que Faz Sentido Estudar nos Próximos 15 Anos
A resposta não se concentrou em uma carreira específica, mas em capacidades fundamentais:
- Aprender a pensar
- Desenvolver lógica
- Fortalecer a comunicação
- Cultivar pensamento crítico
Num mundo cada vez mais permeado por sistemas inteligentes, saber pedir, interpretar, questionar e definir com clareza se torna tão importante quanto conhecer uma ferramenta específica.
O Custo Real do Software
Amartino levou a reflexão para uma realidade que muitas empresas já estão vivenciando: “Se uma pessoa não consegue explicar o que busca, formular bem um problema ou entender o resultado que necessita, dificilmente possa aproveitar uma tecnologia avançada.”
A reflexão conecta com uma ideia cada vez mais presente nas organizações: a parte mais cara do software já não é sempre programar, mas decidir corretamente o que construir.
Essa decisão exige:
- Critério
- Linguagem clara
- Compreensão do contexto
- Capacidade de converter necessidade em solução
Conhecimento Atávico em Tempos de Tecnologia Acelerada
Colombo adicionou à conversa o efeito Lindy: a ideia de que certos conhecimentos, quanto mais perduram, mais probabilidades têm de continuar sendo relevantes.
O Efeito Lindy e a Relevância Temporal
A partir dessa perspectiva, disciplinas como:
- Lógica
- Matemática
- Física
- Química
- Comunicação
…aparecem como bases mais sólidas que muitas tendências circunstanciais.
Por Que o Conhecimento Fundamental Importa Mais
A tecnologia muda, as plataformas são substituídas e as ferramentas se tornam obsoletas. Mas as capacidades que permitem entender o mundo, estruturar problemas e comunicar ideias mantêm seu valor.
Um profissional que domina lógica e comunicação pode aprender qualquer ferramenta nova. Mas alguém que só conhece uma ferramenta específica ficará obsoleto quando essa desaparecer.
IA e Compreensão Fundamental
Amartino concordou com essa visão e levou a reflexão para a inteligência artificial, os modelos que tentam compreender leis físicas e a importância de não confundir previsão com entendimento.
A discussão abriu uma perspectiva mais profunda: o futuro não dependerá apenas de saber usar tecnologia, mas de entender os princípios que permitem orientá-la.
A Comunicação como Ferramenta de Evolução
Perto do encerramento da entrevista, a conversa derivou em uma reflexão sobre leitura, escrita e comunicação como formas de acumular conhecimento.
A Leitura como Transmissão Quase Telepática
Colombo descreveu a leitura como uma forma de transmissão quase telepática: uma ideia nascida em uma mente pode viajar através do tempo e chegar a outra pessoa décadas ou séculos depois.
A Comunicação na Evolução Humana
Amartino retomou essa ideia para apontar que a comunicação é uma das ferramentas que permitiu a evolução humana:
- Sem comunicação não há acumulação de conhecimento
- Sem linguagem não há coordenação
- Sem coordenação não há estratégia
- Sem estratégia não há aprendizagem coletiva
Mesmo num mundo dominado por inteligência artificial, essa capacidade continua sendo central.
A Dimensão Humana que a IA Não Substitui
A tecnologia pode:
- Acelerar processos
- Ordenar informação
- Assistir decisões
Mas as ideias precisam ser formuladas, transmitidas, discutidas e compreendidas. Essa dimensão humana continua sendo decisiva para qualquer transformação real.
Uma Conversa sobre Tecnologia, mas Também sobre Critério
Fin Talks abriu novamente um espaço para pensar a inovação a partir de uma perspectiva ampla, onde a inteligência artificial não aparece como moda nem como ameaça inevitável, mas como uma ferramenta poderosa que exige compreensão.
Além da Tecnologia
A conversa entre Julián Colombo e Mariano Amartino deixou uma ideia clara: o futuro do trabalho não será definido apenas pela tecnologia disponível, mas pela capacidade das pessoas e organizações para:
- Pensar melhor
- Comunicar com clareza
- Tomar decisões com critério
A Vantagem Competitiva Real
Em tempos de inteligência artificial, automação e transformação permanente, a vantagem não estará apenas em adotar novas ferramentas. Estará em compreendê-las, questioná-las e usá-las para construir melhores formas de trabalhar, aprender e criar valor.
Essa é a verdadeira transformação: não substituir humanos por máquinas, mas potencializar as pessoas com melhores ferramentas, maior critério e comunicação mais clara.

