Em uma nova edição do Fin Talks, Julián Colombo, CEO da N5 Now, conversou com Joaquín Quintas, fundador da Coderío, sobre um dos principais desafios da indústria financeira: como modernizar bancos sem assumir que transformação significa substituir tudo.
A entrevista abordou o papel do core bancário, a inteligência artificial aplicada ao negócio, as arquiteturas em camadas, a evolução dos times tecnológicos e a importância da liderança nos processos de transformação digital.
Assista a entrevista completa:
O Core Bancário Nem Sempre Deve Ser Substituído
A conversa começou com uma ideia central: muitas vezes, o problema não está no core bancário, mas em tudo aquilo que as organizações esperam que ele resolva.
Inteligência artificial, experiência digital, automação, informações de clientes e novos modelos de atendimento costumam ficar presos a sistemas centrais que deveriam cumprir uma função mais específica: operar como um registro contábil estável e confiável.
Por Que o Problema Não Está Onde Achamos
Em muitos casos, modernizar não significa substituir o coração do sistema financeiro. O que é necessário é:
- Liberar o core de funções que não lhe competem
- Construir soluções mais flexíveis e inteligentes ao redor dele
- Preparar a arquitetura para evoluir sem substituir tudo
Isso é especialmente relevante para bancos na América Latina, onde os sistemas legados continuam funcionando, mas carecem de flexibilidade.
Coderío e a Evolução da Banca Digital
Quintas explicou essa visão a partir da experiência da Coderío em projetos para bancos da região.
Nos seus primeiros anos, a empresa identificou uma necessidade que ainda não estava resolvida: muitos bancos latino-americanos não tinham canais digitais transacionais robustos para seus usuários finais. Essa oportunidade marcou o início de uma trajetória orientada a desenvolver soluções digitais para a indústria financeira, com um olhar centrado nas necessidades reais do usuário.
Estudo de Caso: Modernização do Core no Chile
Um dos casos destacados foi a modernização de um core bancário no Chile, onde a arquitetura escolhida permitiu:
- Reduzir o sistema central ao mínimo necessário
- Permitir que o core cumprisse seu papel como sistema de registro
- Desacoplar funções vinculadas a experiência, inteligência e automação
Essa decisão estratégica possibilitou que outras camadas tecnológicas assumissem funções de maior valor de negócio, demonstrando que modernização não equivale a substituição total.
O Padrão de Estrangulamento como Alternativa ao Big Bang
Outro conceito central da entrevista foi o padrão de estrangulamento, uma estratégia de arquitetura que permite modernizar sistemas legados de forma progressiva.
Por Que Funciona Melhor que o Big Bang?
Diferentemente de uma migração tipo “big bang” que substitui um sistema por outro de uma vez, essa abordagem:
- Desacopla funcionalidades de forma ordenada
- Migra por domínios específicos do negócio
- Conserva o core anterior enquanto necessário
- Moderniza partes através de APIs e novas arquiteturas
Assim, a mudança deixa de ser um salto arriscado e se torna um processo ordenado de evolução tecnológica, especialmente relevante para bancos e instituições financeiras que precisam avançar sem comprometer a continuidade operacional ou a segurança de seus sistemas críticos.
Inteligência Artificial em Bancos e Reconversão de Papéis
A inteligência artificial permeou boa parte da conversa, mas não como promessa abstrata nem como ameaça linear. O foco estava em seu impacto concreto na forma de trabalhar.
O Impacto Real nos Times Técnicos
Para Quintas, a IA não elimina imediatamente a necessidade de conhecimento técnico em ambientes enterprise, especialmente quando se trata de sistemas bancários críticos. O que ela está produzindo é uma reconversão de papéis.
A inteligência artificial já é usada para:
- Melhorar testes e acelerar implementações
- Otimizar processos operacionais
- Aumentar a eficiência dos times técnicos
Mas sua adoção exige critério, conhecimento técnico e compreensão do negócio.
Times Híbridos: O Futuro da Tecnologia Bancária
Nesse contexto, as organizações começam a construir squads híbridos onde convivem:
- Perfis de software e produto
- Especialistas em dados e segurança cibernética
- Times de risco, jurídico e negócio
O programador precisa entender melhor o valor que gera para a empresa, enquanto as áreas de negócio ganham ferramentas para se aproximar da linguagem técnica. Esta é a verdadeira transformação.
Coderío como Parceira de Inovação
A conversa também permitiu olhar para frente. Quintas explicou que a Coderío busca se posicionar como uma parceira de inovação para seus clientes: uma empresa capaz de observar para onde o ecossistema se move, antecipar soluções e transferir esse conhecimento para os bancos.
A proposta não consiste apenas em desenvolver tecnologia, mas em acompanhar decisões-chave:
- O que modernizar
- O que manter
- O que desacoplar
- Que novas capacidades construir
Liderança Tecnológica e Ambição Construtiva
A entrevista não se limitou à tecnologia. Também houve espaço para falar sobre liderança.
Quando questionado sobre como escolhe os líderes de sua empresa, Quintas apontou uma característica que considera essencial: “a ambição construtiva”.
Não a ambição entendida como competição destrutiva, mas como aquele desconforto interno que impulsiona a melhorar, construir, ir além e dedicar energia real para tornar isso possível.
Essa perspectiva revela uma dimensão decisiva de toda transformação tecnológica: por trás de cada arquitetura, cada migração e cada implementação de inteligência artificial existem times. E por trás dos times, existe cultura.
Modernizar com Inteligência
Fin Talks abriu novamente um espaço para pensar a indústria financeira a partir de uma perspectiva concreta, longe dos lugares comuns.
A conversa entre Julián Colombo e Joaquín Quintas deixou uma ideia clara: o futuro dos bancos não necessariamente exige romper com tudo que veio antes.
Às vezes, a verdadeira inovação consiste em:
- Compreender o que deve permanecer
- Identificar o que deve ser desacoplado
- Definir que novas camadas convém construir
Para que o que existe possa dialogar com o que virá.
Em tempos de inteligência artificial, pressão competitiva e transformação permanente, o desafio não é mudar por mudar. O desafio é modernizar com inteligência.

