O que o caixa eletrônico já nos ensinou sobre o futuro do trabalho

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Em 1967, o Barclays Bank instalou em Londres o primeiro caixa eletrônico da história. A previsão foi imediata: as máquinas acabariam com os empregos nas agências. Mais de meio século depois, a história permitiu-se uma ironia. Não houve menos bancos. Houve outro tipo de banco.

A pergunta volta agora, desta vez com a inteligência artificial. A IA vai substituir os trabalhadores de bancos e seguradoras? Talvez a melhor resposta não esteja no futuro, mas em uma cena bem mais antiga: uma máquina distribuindo dinheiro em uma agência britânica e uma indústria inteira acreditando que estava assistindo ao fim do trabalho humano. Não estava. Estava assistindo à sua transformação.

As “computadoras” de que ninguém se lembra

Antes da existência do computador eletrônico, muitas empresas — incluindo bancos e seguradoras — empregavam pessoas com esse título exato: computers. Eram trabalhadoras, em sua maioria mulheres, que passavam dias inteiros realizando cálculos matemáticos à mão ou com máquinas mecânicas chamadas comptômetros.

Quando os computadores eletrônicos chegaram, nas décadas de 1950 e 1960, esse trabalho desapareceu. Não foi maquiado. Não foi renomeado. Desapareceu. Mas aconteceu algo mais importante: a demanda por serviços financeiros cresceu. A automação reduziu custos, ampliou capacidades e permitiu que o setor fizesse mais, para mais pessoas e em uma escala antes impensável.

O paradoxo do caixa eletrônico

Os caixas eletrônicos reduziram o custo operacional das agências. Como era necessário menos pessoal para tarefas transacionais, os bancos puderam abrir mais pontos de atendimento. E mais agências significaram, no fim das contas, mais funcionários no total.

O economista James Bessen estudou esse fenômeno e mostrou que, entre 1970 e 2010, enquanto o número de ATMs nos Estados Unidos crescia de zero para centenas de milhares, o número de caixas bancários humanos também aumentava.

A máquina não eliminou o ser humano. Ela retirou uma parte do seu trabalho. E, ao fazer isso, obrigou o cargo a ser redefinido. O caixa deixou de ser principalmente um distribuidor de dinheiro para se tornar um gestor de relacionamento, um consultor de produtos e um intérprete de necessidades.

Por que a IA se parece com o ATM — embora não seja a mesma coisa

Os modelos de linguagem não automatizam apenas movimentos repetitivos. Eles podem redigir apólices, analisar sinistros, responder consultas complexas, gerar relatórios de risco e manter conversas sofisticadas com clientes. O salto não é pequeno: já não falamos apenas em substituir tarefas manuais, mas em automatizar tarefas cognitivas.

Mas a pergunta continua sendo a mesma que a história nos ensinou a formular melhor. Não basta perguntar quantos empregos uma tecnologia destrói. É preciso perguntar que nova demanda ela cria.

O que realmente muda: a velocidade

O caixa eletrônico levou décadas para se expandir. A inteligência artificial generativa está sendo incorporada em ciclos de meses. Essa aceleração muda a conversa.

As equipes que hoje processam sinistros rotineiros ou redigem comunicações repetitivas não têm uma década para se adaptar. Precisam desenvolver novas competências agora. Não necessariamente para programar modelos, mas para trabalhar com eles: supervisionar resultados, detectar erros, interpretar exceções e fornecer contexto.

É nesse ponto que se separam as instituições que apenas incorporam tecnologia daquelas que realmente se transformam. As primeiras compram ferramentas. As segundas redesenham capacidades. A IA não substitui cultura. Ela a expõe.

Como costuma afirmar Julián Colombo, fundador e CEO da N5, “o futuro do trabalho não é definido pela tecnologia que surge, mas pela capacidade das organizações de redesenhar o que as pessoas fazem com ela”.

A frase resume o ponto central: a IA não deveria ser vista apenas como uma ferramenta de eficiência, mas como uma oportunidade de direcionar as equipes para tarefas de maior julgamento, maior responsabilidade e maior impacto.

A lição que a história insiste em repetir

Em 1589, o reverendo William Lee inventou uma máquina de tricotar. A rainha Elizabeth I negou-lhe a patente porque temia que destruísse os empregos dos tecelões ingleses. Quatro séculos depois, a indústria têxtil emprega milhões de pessoas em todo o mundo.

A história não diz que a automação é indolor. Ela dói. E quase sempre dói mais para aqueles que têm menos poder para decidir o ritmo da mudança.

Para bancos e seguradoras, a IA não representa o fim do trabalho humano. Representa o fim de um certo tipo de trabalho humano: o mais rotineiro, o mais previsível e o mais repetitivo.

O que permanece — e provavelmente crescerá — é outra classe de trabalho: aquela que interpreta contexto, administra confiança e assume responsabilidade.

O caixa eletrônico nos ensinou que uma máquina pode transformar uma indústria sem necessariamente apagar as pessoas que trabalham nela. A inteligência artificial nos obriga a aprender a mesma lição, só que mais rápido.

E desta vez, a pergunta não é se a tecnologia vai transformar o emprego. A pergunta é quem estará preparado quando isso acontecer.

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