Enquanto os bancos europeus consolidam a adoção da inteligência artificial agêntica — sistemas capazes de tomar decisões e executar tarefas de ponta a ponta com supervisão humana mínima — na América Latina o cenário revela uma paradoxo interessante: mais atraso na adoção, mas uma janela estratégica para acelerar e, em vários aspectos, pular etapas que a Europa precisou percorrer.
Europa: do piloto à operação
O dado é contundente: mais de 85% dos bancos supervisionados pelo Banco Central Europeu já usam inteligência artificial em alguma dimensão do negócio. O que mudou em 2025 e 2026 não é a adoção em si — isso já vinha acontecendo — mas o tipo de IA que está sendo implementado.
Bancos como BBVA, ING, Deutsche Bank e Santander deixaram para trás os chatbots básicos e os modelos preditivos de primeira geração. Hoje operam com modelos de linguagem em grande escala aplicados a análise jurídica, documentação, assessoria de investimentos e atendimento ao cliente personalizado. O BBVA identificou mais de 60 casos de uso para IA generativa, incluindo sistemas que explicam as condições de um empréstimo em linguagem simples, sem jargão jurídico. O ING desenvolveu, em parceria com a McKinsey, um assistente conversacional baseado em modelos de linguagem de grande porte que elevou significativamente a satisfação do cliente. O Deutsche Bank utiliza esses modelos para análise financeira e serviços de assessoria de investimentos.
Mas o salto mais significativo de 2026 é a transição para a IA agêntica: sistemas que não apenas respondem perguntas, mas coordenam tarefas, tomam decisões e executam processos completos com supervisão humana mínima. A Capgemini identificou essa tendência como a principal do ano no setor bancário. O BCE, em sua agenda de supervisão para 2026-2028, já incluiu o monitoramento específico de aplicações de IA generativa e agêntica como prioridade estratégica.
América Latina: o atraso que esconde uma oportunidade
Na região, o panorama é diferente, embora mais dinâmico do que costuma ser reconhecido. 77% das instituições financeiras latino-americanas já investem em algoritmos de IA e análise avançada de dados; 75% planejam adotar agentes de IA em 2026. No entanto, apenas 23% conseguem extrair valor econômico real desses investimentos, e apenas 6% relatam impacto significativo na rentabilidade.
A lacuna não é de intenção, mas de infraestrutura e maturidade. Os sistemas legados — tecnologia core bancária com décadas de existência — continuam sendo o principal freio para escalar a IA nas operações. Na Europa, os bancos investiram anos modernizando essa camada antes de conseguir implementar IA em escala. Na América Latina, esse processo está em andamento, mas ainda não terminou.
É justamente aí, porém, que está a oportunidade. Diferentemente dos bancos europeus, que precisaram desmontar e migrar arquiteturas antigas com custos altíssimos, várias instituições latino-americanas podem construir diretamente sobre infraestrutura moderna e cloud-native, adotando IA agêntica sem passar pelas mesmas etapas intermediárias. Um efeito leapfrog semelhante ao que ocorreu com o mobile banking: a região pulou o banco via computador e adotou diretamente o celular como canal principal.
Os sinais são concretos. Em março de 2026, a Mastercard executou as primeiras transações agênticas em produção na América Latina. Semanas depois, Santander e Visa concluíram um piloto simultâneo na Argentina, no Brasil, no Chile, no México e no Uruguai, no qual agentes de IA realizaram compras completas de ponta a ponta sem intervenção humana. O Boston Consulting Group estima que a adoção de IA agêntica pode aumentar a rentabilidade bancária em 30% e reduzir os custos operacionais entre 30% e 40% até 2030.
O verdadeiro desafio: da adoção ao valor
Para Julián Colombo, CEO da N5 — empresa especializada em plataformas de inteligência artificial para a indústria financeira na América Latina — a diferença entre a Europa e a região não está na ambição tecnológica, mas na capacidade de execução. “Os bancos latino-americanos têm clareza sobre para onde ir; o desafio é como conectar essa visão aos sistemas existentes sem paralisar a operação no processo.”
O caminho europeu mostra que a IA agêntica não é uma meta abstrata: é o resultado natural de camadas de modernização incremental sobre o core bancário. A região tem a vantagem de aprender com essa trajetória e, em muitos casos, encurtar consideravelmente o caminho.
A pergunta não é mais se a banca latino-americana vai adotar IA agêntica. É quão rápido isso vai acontecer — e se a infraestrutura estará pronta para sustentar esse salto.
Fontes: Banco Central Europeu, Autoridade Bancária Europeia (EBA), Capgemini World Retail Banking Report 2026, Boston Consulting Group, PYMNTS, Galileo Financial Technologies, Infobae, MobileTime Latinoamérica.

