Por Gisela Colombo
Em tempos normais, a inteligência artificial costuma se apresentar como uma ferramenta para melhorar a eficiência, personalizar a experiência do cliente ou reduzir custos operacionais. Na Ucrânia, porém, a conversa tem outra densidade. Lá, a tecnologia financeira não se mede unicamente por sua capacidade de inovar, mas por sua capacidade de sustentar serviços críticos em condições extremas.
A guerra transformou o sistema financeiro ucraniano em um laboratório involuntário de resiliência digital. Bancos, fintechs, reguladores e fornecedores de tecnologia tiveram que responder a uma pergunta urgente: como se mantém a banca funcionando quando a infraestrutura física pode ser atacada, as agências deixam de ser suficientes e milhões de pessoas dependem de canais digitais para sacar, pagar, transferir ou acessar seus fundos?
Nesse contexto, a inteligência artificial não aparece como uma camada decorativa sobre processos tradicionais. Aparece como uma ferramenta prática para reduzir fricção, automatizar tarefas, detectar riscos e sustentar operações. Seu valor não está em substituir a banca, mas em torná-la mais resiliente.
Um dos exemplos mais visíveis é o Monobank, um dos bancos digitais mais reconhecidos da Ucrânia. A instituição incorporou IA para simplificar pagamentos por IBAN: o usuário pode enviar uma fatura ou invoice em PDF, PNG ou JPEG, e o sistema identifica automaticamente os dados necessários para completar o pagamento. Parece uma melhoria menor de experiência de usuário, mas em um país em guerra tem uma leitura mais profunda. Cada passo manual eliminado reduz erros, acelera operações e facilita o acesso a serviços financeiros em momentos em que a atenção, o tempo e a conectividade podem ser limitados.
O PrivatBank oferece outra dimensão do mesmo fenômeno. No início da invasão russa, o banco migrou aplicações críticas para a nuvem em um prazo extremamente curto para preservar a continuidade do serviço. Essa decisão não é IA em si mesma, mas sim a base sobre a qual a IA pode operar: infraestrutura flexível, dados acessíveis, sistemas distribuídos e capacidade de resposta ante crises. Sem essa arquitetura, qualquer ambição de inteligência artificial fica presa em sistemas frágeis.
O interessante do caso ucraniano é que combina três camadas: digitalização acelerada, necessidade operacional e supervisão regulatória. O Banco Nacional da Ucrânia já reconhece que a IA e machine learning estão sendo utilizados por uma parcela significativa do mercado financeiro e, ao mesmo tempo, trabalha em diretrizes para garantir que essa adoção seja responsável. A preocupação não é apenas inovar, mas evitar novos riscos: decisões automatizadas opacas, vieses, problemas de privacidade, ciberataques, dependência tecnológica ou falhas que possam afetar a confiança no sistema.
Essa tensão é fundamental. Em países em guerra, a IA pode ser uma vantagem competitiva, mas também pode se converter em uma vulnerabilidade se implementada sem governança, sem rastreabilidade ou sem supervisão humana. Um modelo que automatiza decisões de crédito, identifica operações suspeitas ou responde a clientes deve ser eficiente, mas também explicável, auditável e seguro. A resiliência não consiste unicamente em seguir funcionando; consiste em seguir funcionando sem quebrar a confiança.
A Ucrânia demonstra que a banca do futuro não necessariamente nasce nos mercados mais confortáveis, mas naqueles obrigados a resolver problemas urgentes. Lá, a IA se converte em uma resposta a perguntas muito concretas: como operar com menos dependência física, como atender melhor a clientes sob pressão, como detectar anomalias mais rápido, como automatizar documentação, como sustentar pagamentos e como proteger dados em um ambiente hostil.
Para a América Latina, o aprendizado é evidente. Não é necessário esperar uma guerra para pensar a banca como infraestrutura crítica. Crises econômicas, desastres naturais, ciberataques, instabilidade política ou problemas de conectividade também exigem sistemas financeiros mais adaptativos. A pergunta não é se a banca incorporará IA, mas com qual propósito o fará.
O caso da Ucrânia deixa uma lição poderosa: a inteligência artificial em banca não deveria ser pensada unicamente como uma corrida por ser mais eficiente. Nos contextos mais difíceis, seu verdadeiro valor está em ajudar o sistema financeiro a permanecer de pé.

